CAPÍTULO 017–14 JUL 2099
Sete dias para encerrar o mundo
A Terceira Guerra terminou porque já não havia comando capaz de declarar vitória.
A invasão de Taiwan começou depois de meses de bloqueio, sabotagem orbital e negociações condenadas ao fracasso. A resposta americana ainda foi transmitida como uma guerra convencional. Então os satélites caíram, centros de comando perderam contato e uma arma nuclear classificada como tática tornou aceitável a próxima retaliação.
Sistemas automáticos interpretaram sinais incompletos como ataques confirmados. Entre 7 e 14 de julho, mais de vinte mil ogivas, mísseis, armas orbitais e cargas eletromagnéticas atravessaram a atmosfera. A estimativa foi de 1,7 bilhão de mortos. Os sobreviventes herdaram cidades sem governos, exércitos sem países e arsenais ainda capazes de disparar sozinhos.
Não houve tratado. As batalhas continuaram por água, hospitais e estações subterrâneas. Na última noite, observatórios registraram uma aurora em todas as latitudes. A humanidade ainda não sabia que a destruição nuclear seria apenas a primeira ruptura.
CAPÍTULO 0215–16 JUL 2099
O dia em que o Céu fechou
Primeiro vieram as trombetas. Depois, as vozes debaixo da terra.
Na tarde de 15 de julho, Cristo apareceu sobre as nuvens de cinza à frente de hostes angelicais. Em instantes, 2,7 bilhões de pessoas desapareceram. Pilotos sumiram das cabines; cirurgiões, das salas abertas; famílias ficaram diante de roupas vazias. Restaram 7,6 bilhões de pessoas e nenhuma explicação compartilhada para a escolha.
Igrejas foram lotadas e incendiadas na mesma noite. Autoridades que mal haviam sobrevivido à guerra perderam sua última legitimidade. Em Roma, religiosos deixados para trás passaram a acreditar que deveriam expiar seus pecados em armas. O Arrebatamento tornou-se o centro de interpretações que nenhum país conseguiu provar.
Ao amanhecer do dia 16, fissuras negras se abriram nas maiores zonas de morte. Calor, vozes e legiões atravessaram crateras, túneis e cidades queimadas. Lúcifer estabeleceu sua primeira corte na África central. A rede dos portais ignorava oceanos e fronteiras: começava a Grande Guerra do Juízo Final.
CAPÍTULO 032100–2399
A sobrevivência tornou-se uma doutrina
Cada potência nasceu de uma maneira diferente de resistir à extinção.
No primeiro século, a resistência se organizou onde havia um depósito, uma muralha ou alguém capaz de reunir os sobreviventes. Refúgios submarinos transformaram oxigênio em moeda. Fábricas preservadas pelo colapso deixaram de atender a Estados e passaram a exercer soberania. No norte, abrigos se uniram sob uma linhagem capaz de dominar gelo e tempestades.
Entre os séculos XXII e XXIV, as nações distorcidas recuperaram território. Doze províncias formaram a Coalizão Dracônica. A Manchúria tornou-se um laboratório continental. Clãs e comboios seguiram Altan pelas estepes. No Pacífico, doze navios-cidade encerraram sua guerra interna aceitando uma lei comum de pilhagem.
Nas Américas, o Brasil relativamente preservado iniciou campanhas para expulsar legiões e anexar governos sobreviventes. A expansão atravessou selvas, cordilheiras e desertos até a fundação de Nova Tenochtitlán. Na Macedônia, um demônio que afirmava carregar a memória de Alexandre traiu Lúcifer e fundou um reino com humanos e legiões renegadas.
CAPÍTULO 042400–2589
Uma aliança feita de desconfiança
Nenhuma facção possuía todas as peças. Nenhuma aceitaria deixar outra usá-las sozinha.
Arquivos romanos, tábuas asiáticas e observatórios submarinos começaram a descrever três instrumentos capazes de expulsar uma entidade soberana. Seus fragmentos estavam dispersos entre crateras, fortalezas ocupadas e cidades submersas. Recuperá-los exigia recursos e conhecimentos que nenhum império dominava por inteiro.
A Lança reuniu metal de Roma, energia do Novo Sol e ligas do Consórcio. A Chave dependeu de inscrições da Jihad, cristais da Nova Dinastia e um núcleo tomado por piratas. Para interpretar o Selo, códigos de Choguk, arquivos dracônicos e organismos biomânticos tiveram de trabalhar sobre o mesmo problema.
A cooperação veio por chantagem recíproca. Cada potência escondia uma peça e preparava a disputa seguinte. Mesmo assim, abastecimento cruzou oceanos, observadores guiaram artilharia de antigos inimigos e soldados morreram protegendo engenheiros estrangeiros. Dezoito guerras separadas finalmente se tornaram uma operação.
CAPÍTULO 052590–7 JUL 2599
Os Nove Anos da Persistência
Lúcifer foi expulso. O Inferno não desapareceu da Terra.
A ofensiva final isolou fortalezas, fechou portais menores e atraiu comandantes infernais para frentes falsas. Os Czares consumiram exércitos em poucas horas. Egair atravessou desertos em veículos que pousariam uma única vez. A Horda manteve as legiões em movimento enquanto Choguk erguia posições de fogo.
Em 7 de julho de 2599, exatamente quinhentos anos após o início da Terceira Guerra, Lúcifer foi atraído ao campo de Atonement. Três portais convergiam naquela extensão de ruínas vitrificadas. A Lança rompeu sua forma terrena; a Chave obrigou o abismo a recebê-lo; o Selo encerrou a passagem antes que suas legiões recuassem em ordem.
O banimento deixou demônios isolados, cultos humanos e as legiões renegadas de Nova Macedônia. Marcas infernais permaneceram no clima, na carne e nas máquinas. A guerra terminou formalmente naquela noite, mas não existia um mundo intacto ao qual retornar.
CAPÍTULO 062599–2600
A paz durou setenta e três dias
O inimigo comum partiu. As dívidas, os arsenais e as fronteiras ficaram.
Por setenta e três dias, nenhum grande exército atacou outro. Embaixadores trocaram listas de mortos, mapas e exigências incompatíveis. Os artefatos foram desmontados por medo de que uma única facção os controlasse. Todas negam conservar fragmentos; nenhuma confia na negação das demais.
A primeira ruptura veio quando a Grande Maré tomou suprimentos que a Coalizão Dracônica reivindicava. Depois vieram disputas nos Urais, ataques de radiação na costa australiana, maldições contra postos cruzados e desaparecimentos atribuídos à Ordem Submersa. Em menos de um ano, as frentes foram redesenhadas.
Este é o presente de FRONT: o ano 2600. Dezoito potências reivindicam ter pago o maior preço pela sobrevivência e, por isso, merecer o futuro. A guerra é industrial, biológica, religiosa, mágica e econômica ao mesmo tempo. Cada promessa de paz começa exigindo a vitória de uma bandeira.